sexta-feira, 6 de março de 2015

Amante – a origem de uma palavra e seus múltiplos sentidos

Amante
                Quem diria! Uma simples frase de apresentação causou alvoroço hoje na sala de aula. Desde que eu me conheço por professora, uso a seguinte frase de apresentação nas minhas apostilas: “Casada com a linguística e amante da literatura”. Explico: o casamento foi entrelaçado com a linguística pelo gosto de pesquisar e estudar o português. A relação com a literatura, mesmo com estudos da faculdade, sempre foi muito mais por fruição, ou seja, prazer de ler. Por isso, a vontade intensa de transformar os encontros literários escolar em algo que proporcione afinidade dos alunos com a leitura literária.
            
    Mas o que me chamou a atenção é o susto que alguns alunos tiveram ao ler em voz alta a palavra amante, sem prestar atenção ao resto da frase. Ser amante da literatura significa se entregar à leitura, ao enredo do livro: vivenciar, imaginar, viajar com a narrativa. Ler é como ter outras vidas, secretas, deliciosas, ao simples alcance de nossas mãos: em um livro.
                Ser amante é amar alguém ou algo. Nesse caso, a leitura literária. Aqueles olhares curiosos risonhos fizeram-me procurar os cadernos de pragmática e relembrar a origem da palavra a mante: “amante vem do latim AMANS, ‘aquele que ama’, de AMARE, ‘amar’, que vem de AMOR, ‘amor’”.
                Ou seja, o significado original é simples e amoroso, sinônimo de amor. Nada a ver com traição. No entanto, como a língua é um “ser” vivo, ao longo do tempo, algumas palavras ganham novos significados, conforme o contexto usado. Por isso, em alguma época da história, a palavra amante foi relacionada àquela pessoa que mantém relações amorosas ilícitas.
                Quer saber? Eu sou mais do amante como aquele que amar. Já que as palavras podem transformar-se conotativamente, eu fico com essa relação: amante = amor. E você?

Luana Iensen Gonçalves

quarta-feira, 4 de março de 2015

Perfil


 O múltiplo Benaduce
No primeiro semestre no qual eu fui colega do Benaduce Guilherme (porque a sua apresentação é o Benaduce na frente e é assim que gosta que o chamem), imaginava que ele seria aquele estudante do contra: um olhar intimidador, como se fizesse uma leitura de que acontecia ao seu redor e já se pronunciaria fora do eixo imaginário da turma. Típico da primeira impressão, mas que bom que existem outras.
Preto no Branco. Arquivio Pessoal

Só com o tempo e a convivência em algumas disciplinas, aprendi que aquele era um olhar de quem capta o momento das pessoas ao seu redor principalmente por meio de câmeras. E sua captação, mesmo não se considerando alguém sensível diante de algumas situações, torna-se mais humana por apresentar-se em preto e branco, ou melhor, preto no branco. O instante do sentimento fica tatuado no papel.
Quando tive o privilégio de conversar com ele, fui descobrindo que esse olhar já se manifestava desde o ensino médio. O que talvez fosse uma das razões por trocar a filosofia por jornalismo e iniciar uma nova fase de questionamentos. Na época da faculdade, por trabalhar com taekwondo, cancelou a matrícula do jornalismo na federal e começou a cursar educação física paralelamente ao jornalismo na Unifra. E isso se foi até ao 7º semestre do curso da federal, quando, em um momento de lucidez, percebeu que ser educador físico não era a sua escolha para uma vida toda.
Optar pelo jornalismo foi a possibilidade de continuar a ser chato, que para ele significa ser questionador do pensamento alheio. Talvez aí esteja o porquê de um olhar observador. Talvez aí esteja a sua autodefinição de ser uma pessoa de fases, multiplicidades.
Além da conversa corpo a corpo, um meio de hoje descobrirmos algumas pinceladas da identidade de uma pessoa é espiarmos uma rede social dela. E nesse quesito, Benaduce define que seu perfil no facebook evidencia três temas que ele aprecia sem moderação: trabalho, mulher e cerveja.
O jovem captador de momentos concorda com a máxima que o trabalho dignifica o homem. A possibilidade de trabalhar atualmente em uma revista o deixa satisfeito, pois é um trabalho palpável. É possível ver, tocar o material e perceber o quanto pode transcender o papel de um jornalista, já que até chegar àquele produto, toda uma rotina produtiva precisou ser organizada. 
Conforme poetizou Martinho da Vila, Benaduce já teve “mulheres de todas as cores / De várias idades, de muitos amores / [...] do tipo atrevida / Do tipo acanhada, do tipo vivida / [...] Mulheres cabeça e desequilibradas / confusas, de guerra e de paz”. A admiração pelo sexo oposto e pelas várias faces secretas que podem emanar de uma mulher possibilitou o viver uma paixão por cada uma dessas diferentes mulheres.
Outra face da personalidade do Benaduce é a terceira palavra-chave: cerveja. Esse precioso líquido, para ele, nada tem a ver com exageros, mas sim com o prazer da apreciação. Melhor ainda se for da companhia de amigos ou família regrados de uma boa conversa, e, por que não, de uma boa filosofia.
Desvendar a personalidade de um desconhecido não é fácil. Às vezes, a insegurança de fazer uma pergunta inadequada pode nos fazer perder a chance a conhecer melhor o outro. Mas a possibilidade de mudar as nossas certezas a respeito de alguém não tem preço. Conhecer o outro é poder olhar para nós mesmos e renovarmos os questionamentos.

Luana Iensen Gonçalves - março 2015

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Uso dos pronomes eu e mim

Eu x Mim
Quando usá-los?
As gramáticas da língua portuguesa recomendam que as formas oblíquas tônicas dos pronomes pessoais sejam regidas de preposição. Esses pronomes são: mim, ti, ele, ela, si, você, nós, vós, eles, elas, si, vocês. Assim:
Venham a mim.
Meu aluno precisa de mim.
Joana só pensa em si (mesma).
Tudo já foi dito a vocês.

Até aqui sem problemas. No entanto, existe uma confusão em relação ao uso correto (padrão) do pronome pessoal do caso oblíquo tônico "mim" e o pronome pessoal do caso reto "eu". A dificuldade aparece em frases como esta:

a) "No jantar, Lili ficou entre mim e ele, o padrinho, e, coisa incrível, deu-me mais atenção que a ele."

As gramáticas condenariam, por exemplo, o uso de "Lili ficou entre eu e ele...", porque "entre" é uma preposição e exige, como já ressaltado, o pronome na forma oblíqua tônica "mim", e não a forma pessoal do caso reto "eu".


Há ainda outra confusão, quando há casos como os seguintes:
b) Ana fez de tudo para eu falar.
c) Não façam nada sem eu saber.

Nesses exemplos, temos a forma reta depois de uma preposição. E este correta, pois as gramáticas afirmam que se usam as formas retas, mesmo depois de uma preposição, quando o pronome for sujeito de um verbo infinitivo que vier a seguir.


Profª Luana Iensen

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Expressões que exigem cuidado – parte II

Tenha atenção a algumas expressões de nossa língua que exigem cuidado na hora de escrever. Estas expressões fazem parte do Manual de Redação e Estilo da Agência Estado.

P Chegou "a" duas horas e partirá daqui "há" cinco minutos. Há indica passado e equivale a faz, enquanto a exprime distância ou tempo futuro (não pode ser substituído por faz): Chegou há (faz) duas horas e partirá daqui a (tempo futuro) cinco minutos. / O atirador estava a (distância) pouco menos de 12 metros.

P Ficou contente "por causa que" ninguém se feriu. Embora popular, a locução não existe. Use porque: Ficou contente porque ninguém se feriu.

P À medida "em" que a epidemia se espalhava... O certo é: À medida que a epidemia se espalhava...

P Chamei-o e "o mesmo" não atendeu. Não se pode empregar o mesmo no lugar de pronome ou substantivo: Chamei-o e ele não atendeu. / Os funcionários reuniram-se hoje: amanhã o país conhecerá a decisão dos servidores (e não "dos mesmos").

P A promoção veio "de encontro aos" seus desejos. Ao encontro de é que expressa uma situação favorável: A promoção veio ao encontro dos seus desejos. De encontro a significa contrariedade: A queda dos salários foi de encontro às (foi contra) expectativas.

P Comeu frango "ao invés de" peixe. Em vez de indica substituição: Comeu frango em vez de peixe. Ao invés de significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.

P A tese "onde"... Onde só pode ser usado para lugar: A casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele defende essa idéia. / O livro em que... / Na entrevista em que...

P Já "foi comunicado" da decisão. Uma decisão é comunicada, mas ninguém "é comunicado" de alguma coisa. Assim: Já foi informado (avisado) da decisão. Outra forma errada: A diretoria "comunicou" os empregados da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos empregados.

P Espero que "viagem" hoje. Viagem, com g, é o substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de viajar): Espero que viajem hoje.


P O pai "sequer" foi avisado. Sequer deve ser usado com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.

Professora Luana Iensen 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"a gente" x nós

Uso do “a gente” no lugar de “nós”

É possível utilizar a expressão “a gente” no lugar de “nós”, mas apenas na linguagem coloquial, ou seja, nas nossas conversas do dia a dia ou em bate-papo informal. No entanto, na linguagem formal, em um texto que escrevemos na escola, na faculdade, em concursos, devemos usar "nós". A gramática normativa, por enquanto, aceita apenas o “nós” como pronome. Já existem diversas pesquisas sobre o uso do “a gente”, mas ainda não foi considerado cientificamente aceito pela Academia Brasileira de Letras.
ATENÇÃO: como deve ser a concordância quando usamos o "a gente": "A gente quer" ou "A gente queremos"? O correto é: A gente quer. E "nós"? Nós queremos.
Ou seja: para a expressão “a gente” utiliza-se o verbo conjugado na terceira pessoa do singular, ou ainda, essa expressão pode ter uma oração reduzida introdução pelo pronome que ou se. Mais exemplos:
(...) Infelizmente a gente tem que tá ligado o tempo inteiro
Ligado nos pilantra e também nos bagunceiro
E a gente se pergunta porque a vida é assim?
É difícil pra você e é difícil pra mim. (...) Fonte: Senhor do tempo, Charlie Brown Junior.







Português padrão
literário
Português padrão
coloquial
Eu AMO
Tu AMAS
Ele AMA
Nós AMAMOS
Vós AMAIS
Eles AMAM
Eu AMO
Você AMA
Ele AMA
A gente AMA
Vocês AMAM
Eles AMAM

Profª Luana Iensen


Referências
BAGNO, Marcos. A língua de Eulália. Novela sociolinguística. 15.ed. São Paulo: Contexto, 2006.
BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim! Em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

LOPES, Celia Regina dos Santos. Nós por a gente: uma contribuição da pesquisa sociolinguística ao ensino. In: CARDOSO, Suzana Alice Marcelino (org.) Diversidade Linguística e Ensino. Salvador: EDUFBA, 1996. P. 115-123

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Expressões que exigem cuidado – parte I


Tenha atenção a algumas expressões de nossa língua que exigem cuidado na hora de escrever. Estas expressões fazem parte do Manual de Redação e Estilo da Agência Estado.

P "Entrar dentro". O certo: entrar em. Veja outras redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação, monopólio exclusivo.

P "Venda à prazo". Não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: a salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

P Quebrou "o" óculos. Concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

P A última "seção" de cinema. Seção significa divisão, repartição, e sessão equivale a tempo de uma reunião, função: Seção Eleitoral, seção de Esportes; sessão de cinema, sessão do Congresso.

P Não sabiam "aonde" ele estava. O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

P "Obrigado", disse a moça. Obrigado concorda com a pessoa: "Obrigada", disse a moça. / Obrigado pela atenção.

P Ela era "meia" louca. Meio, advérbio, não varia: meio esperta, meio amiga.

P A questão não tem nada "haver" com você. A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

P Foi "taxado" de ladrão. Tachar é que significa acusar de: Foi tachado de ladrão.


P Queria namorar "com" o colega. O com não existe: Queria namorar o colega.

Profe. Luana Iensen

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Mais vontade, menos listas

Passada a euforia das festas de virada, é chegada a hora de cair na real: aquela lista de metas para o ano novo será concretizada? As pessoas se iludem tanto, que, às vezes, a lista é a mesma há anos, só é trocado o ano.
Essa não realização pode acabar se tornando uma frustação, já que a lista é a mesma e nada mudou, nada foi feito. Isso vira um problema porque as pessoas desejam metas grandes demais, exageradas, as quais não estão a seu alcance de realizar. Eu sei, muitos dizem que se é para sonhar que seja grande, mas se não for para realizar por que sonhar??
Exemplos clássicos: “este ano vou passar de ano sem recuperação”, mas muda em nado o compromisso de estudar, “este ano vou emagrecer 20 quilos”, mas não consegue cinco, “este ano vou parar de fumar”, mas continua comprando maços e maços de cigarro. Não quero que não façam mais listas, também tenho a minha; apenas desejo que acrescentemos uma pitada de realidade e uma dose de vontade.
É melhor começar a lista com aspirações as quais estejam ao nosso alcance, assim, a cada meta conquistada, nossa vontade de querer fazer mais será acelerada e até os grandes desejos serão realizados.

Luana Iensen



Revisão SIS II - Questões